Pedaço da saliva

 

Tantas formas de comunicação e nos faltam palavras. Faltam encontros também.

Faz falta o que sonhamos em ter, nunca chegamos a tocar. Porém, não é triste o que nem chega ser.

O medo nos cega. Parte-nos em minúsculos fragmentos de nós mesmos atirados à rotina de obrigações que não nos oferecem nem metade da pele, do toque que nos atrai.

Dizem que o que nasce doce pelos sentidos e morre logo depois está no modo da paixão. Nossa maneira de ver as coisas.

Ainda que a dislexia nos distraia e nos destrua. E o tempo não nos permita tocar o futuro.

Somos parte de nossos poucos encontros.

Pedaço do bem que nos sobrou.

 

 

Diante de ruas manchadas

 

Enquanto caminhava pela rua, notava pedras e perdia a hora de vista. O mundo se tornara confuso de um dia para o outro. Viver em meio a violências provocadas por egoísmos e ignorâncias fazia seus dias sangrarem.

Até quando as pessoas vão achar que Deus pertence a elas e que existem embates entre Deuses pessoais?

Até quando o Brasil vai sangrar lama enquanto o planeta se esvai em insegurança?

Sofrer de longe, calado ou vivendo? Largamos o dia para chorar pelos mortos?

Pelo ambiente destruído?

Tantas perguntas para se andar junto.

São dias difíceis para quem pensa.

São os nossos dias, pensava. Dias do nosso tempo no mundo. Temos o dever de fazer melhor.

Mais um passo. Afasta esse passado.

A força que cria está conosco. Escolher destruir é manifestação humana apenas.

Torpe manifestação que faz embrulhar o estômago do que é divino dentro de nós. Não existe assassinato santo. E toda guerra quente esfria amor e mancha ruas.

É preciso levar mais a sério o amor em nosso tempo.

 

 

As páginas em branco de cada despertar

 

Levantar e seguir a rotina é para os fortes. Entre a luta de levantar, viver e realizar, o começo sempre se desdobra na página em branco dos nossos dias.

Nossos atos são os reflexos do que queremos ser. E vamos encarar os fatos: não somos nada perfeitos.

Deslizamos e escorregamos em erros. Até termos algo para comemorar. Algo que criamos no mundo e para o mundo. Em resumo: para as pessoas.

Nesse espaçamento entrelinhas de viver é que ocorrem os encontros inusitados que sempre esperamos. Num bar, na esquina, no mercado ou no trabalho. Os encontros inusitados não tem hora para acontecer.

Tem gente que toma banho e usa sabonete todos os dias pensando nisso. É uma preparação para o que pode acontecer.

Essa mania do mundo nos surpreender gira nossa roda para sentidos e direções variadas. Isso faz, muitas vezes, que os sonhos de hoje sejam diferentes dos de ontem e nos levem em novos caminhos e caminhadas.

As pessoas mudam e as estradas também. As rodovias da imaginação são buscas evolucionais particulares.

Depois de anos de viver, cada um torto para seu lado, percebemos que a solidão é a única coisa que nos protege. Porém, mantem a página em branco.

O colorido de viver é a confusão de nossos encontros. Para o mestre da arte, o amor pode ser consequência.

Por isso, faz mais sentido pessoas que façam explodir em pantones existenciais nossos sentidos. A razão do toque, da pele, dos gostos e dos sentidos se escondem aí. Os motivos de sorrir e de acordar de volta amanhã estão naquele encontro de mãos, naquela música que só vocês sabem o porquê.

O vivente sem ansiedades vive assim, deita tranquilo para zerar a página e levantar amanhã com tudo. Limpo e purificado para novos encontros como os dias que ainda decidiremos viver.

 

 

Ela que vive correndo

 

Limpou a cara no guardanapo de ontem e saiu. Havia algo de vibrante em suas mãos, passava pelo braço todo e invadia peito. Era uma certa satisfação contida com o trabalho a realizar. Acordar atrasada fazia parte do jogo de desiquilibrar o balanço dos dias com as noites.

Adorava se desafiar.

E nada mais bastava depois da dose de adrenalina radiante de poder colocar tudo a perder em um suspiro mal dado ou em uma rua mal atravessada.

Vivia correndo.

Se estava adiantada, queria chegar antes ainda para dar tempo de outra coisa.

Era dessas.

Hiperativa. Imperativa.

Achava a vida saborosa quando o controle não há. Entregava amor até na fila para pagar o pão. Não sabia odiar porque desistiu cedo demais para reaprender.

Era rápida na resposta.

Clara no objetivo. Mas sempre estava atrasada.

Vivia correndo.

Pronta pra chegar lá.

 


 

 

 

É nesta sexta-feira, dia 6 de novembro. Lançamento do novo livro de Felipe Belão.

#NovoLivroDoBelao

 

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Saideira por Conta da Casa

 

Em sua pequena cidade, havia um bar.

Um grande amigo seu que se mudara para a capital, em seu retorno às origens, contou que já havia sido dono do local.

“Na época…”, ele recordou, “…eu ainda era casado com aquela mulher. Não vamos falar dela. Eu não me entendo naquela época. Bom, mas… nesse tempo… foi nesse tempo que montamos o Saideira por Conta da Casa.”

A história ficou na cabeça dele por algumas semanas. Seu amigo era discreto quando contava histórias, poucas mentiras suas já haviam sido descobertas.

A questão é o que o dono do Bar Saideira por Conta da Casa era orgulhoso ao contar como seu pai abriu uma porta no meio do nada e desafiou quem conseguia tomar oito doses de pinga de seu alambique montado em casa.

Imaginem! 8 doses! Para o vencedor da façanha, a saideira era por conta da casa!

Daí o nome estranho a um estabelecimento que nunca deixou de cobrar nem mesmo uma vírgula da conta do mais gentil dos bêbados frequentes.

Claro que essa história se tornava absurda, mas o senso de investigação do sujeito levou-o a questionar o dono do bar sobre a história do seu pai e confrontá-la com a do seu amigo que casado e menos amargo abrira o bar em que servia saideiras modestas como forma de atrair novos clientes. História bem mais plausível diga-se de passagem, apesar da pinga de alambique da outra ser um fator a se levar em conta.

O fato é que o dono atual do bar-que-pode-ou-não-ter-contado-com-mais-de-um-dono não gostou nada das perguntas e baniu o sujeito das mesas do estabelecimento. O resultado é que de tão curioso agora ele tem que ir pra outra cidade para comprar uma meia dúzia latinhas de gelada.

Na ida com sede, ele sempre pensa tarde demais com mais clareza que em história de bar a verdade nunca tem saideira.

 

 

O limite dos meus parangolés

 

Sem patrões, apenas com referências prévias, as coisas que cultivamos nos dias nos definem. Somos uma pitada de luz e sombra. A escolha da hora do dia é sempre nossa. Minha, sua e de quem quiser prestar atenção aos limites do universo. O seu acaba nos meus parangolés. É o limite.

Há tempos você foi outra pessoa. Você se gostava mais então? O fato é que o você de hoje ainda tem que abraçar o você de ontem em qualquer hora dessas feita de futuro. Não tem o que fazer. Há de se abraçar ou escolher sombra e nunca mais aparecer em palco algum.

Somos o limite do outro, o silêncio do outro é nosso silêncio também. Somos os clichês repetidos em conversas de gerações que passaram. Vamos repetir as palavras de nossos pais quando nos faltarem as nossas.

O sistema parece perfeito. Em uníssono. Até a dor desempenha papel na sinfonia de viver. Existe quem prefira se lançar ao vento para virar som. É o limite etéreo de estar com o pé na terra. Melhor jeito de encarar a segunda-feira. Aumente o volume e perceba o limite dos seus parangolés.

 

 

Rotina

 

Seus despertares eram todos parecidos. Olhava em volta e decidia ser melhor pessoa que no dia anterior. Era uma decisão que tomava enquanto se alongava e dividia o cérebro com o café e o primeiro cigarro.

Não pensava em parar de fumar, mas gostava de se imaginar esportista de sucesso. No entanto, julgava incompatível o sucesso de atleta com a decisão de ser uma boa pessoa agora. Não parava de fumar. E devido ao esforço de ser melhor hoje, tomava a decisão de não ir correr no parque também.

Sair pela porta de casa parecia soltar asas em suas costas. Seu espírito mudava e, por isso, a cansava mais e a fazia pensar tanto em ficar em casa. Mas sair tinha seu ar especial, seu perfume existencial mais doce. Menos tranquilo: carros, pedestres, tempo curto, paciência curta. Ela sempre solta um “fico de cara!” ao ver as pessoas correrem por nada e não contemplarem o todo. Aliás, a questão da contemplação do que importa de verdade era o primeiro sintoma da sua doença crônica de se sentir um ET na Terra.

Curtia sentar e olhar vento na árvore. Ficava em paz sendo o silêncio ao ver água se movendo. Gostava de paredes: as novas, as velhas e as desconhecidas.

Logo que revia paredes e fatos que aconteceram em suas paralelas e perpendiculares, voltava sua atenção para o final da caminhada.

Era hora de trabalhar na corporação sem alma.

Como de costume, não há registro de atividades cerebrais pelas próximas 8 à 10 horas.

Já é noite, hora do simples retorno melancólico para casa. Pelo menos lá, havia paz.

 

 

Sem jeito para apenas um caminho certo

Cada pedaço de seu abdômen se encaixava feito em obra. Construção civil ou pinturas daquelas em que musculosos e flácidos ocupam o mesmo lugar de humano perfeito em seu propósito. Desde de que se saiba exatamente onde está!

Ajeitava o cabelo que acariciava o ombro coberto apenas de pintas de pele caprichada de detalhes.

Media o perfume com ar de quem se preparava para saltar. Seu coração estava batendo tão forte que parecia se deslocar para cima no peito e suas veias reverberaram azedas e ácidas de sangue em ritmo e energia de autopreservação. Para sair de casa, bateu a porta forte e testou a chave duas vezes. Sentia-se dentro daquele corpo que lhe cabia, naquele tempo de viver de instantes para poderem existir as experiências.

Olhou para os lados e logo viu beleza para respirar. E lembrou do Drummond trazendo em questão: “Que pode uma criatura senão entre criaturas, amar?”

E fazia sol. E, de emoção que vem de dentro do plexo para o peito, seus olhos marejados vêem o branco, todas as cores amarelo, intenso água e sal se dissipar num instante. Aqueles instantes em que viver lembrando Drummond parece o jeito certo.

Orgulho toma conta até que chove.

 

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