Brasil na América

No meio da trilha

Entre o barulho de pássaros

E relva de floresta antiga

Mata Atlântica

Por sorte

Esquecida

 

O cancioneiro dança

Ao ritmo de outro alguém

Os chapéus estão suados

O úmido do ar faz lembrar o ventre da mãe

 

E à pátria amada

Do honesto incorrigível

O imposto devido

Para vis políticos

Pegarem

Desviarem

Piorarem

Em nome de bandeira xis

Ou de religião ípsilon

Seguem levando

Pra longe

Ou para o abismo

O sonho do pobre perdido

 

E não adianta maquiar números

Nosso professor é pobre

Nosso artista passa fome

E o nosso remédio é a cerveja

E as drogas que você também consome.

Mulher à prova

Na cadência da fagulha do cérebro, organizava suas racionalidades. Sonhava como sempre, mas com muito mais clareza de caminhos. Gostava dos tortuosos e difíceis. Era forte e precisava provar.

Quando chegou perto de nós todos, naquele tempo em que sonhar não pagava imposto, logo beijou quem queria. Escolhia por ocasião. Por desejo seu e encanto entregue com sorriso sincero. Era livre e precisava provar.

Logo que amou, entregou-se em beijos. Numa mais esperou outros lábios. Foi livre sendo mão, profissional forte. Ouviu “vadia” mais que viu ipê amarelo florescendo. Chegou o tempo em que era tanto que não provou mais nada. Se contentou em subverter a visão da mulher.

E assim viveu o tempo em que cada passo se transformava em vitória.

Adoro o último dia de férias

Sou eu diante de uma piscina de acontecimentos futuros. Estou prestes a mergulhar. Meus pés já sentem o azulejo molhado das bordas. Prendo meus dedões do pé nos cantos. Abraço o mundo pelas patas que terminam em garras. Ajeito dengoso o cabelo. Acaricio a barba que se vai. Vai e vai e vai. Logo vem o gelado da água. Mas agora eu já sei como lidar com o medo.

Paciência com Destino

Com o meu pé na terra, escuto a proclamação do destino. Não posso dormir por uns dias. Não sei mais comer direito. Os horários se confundem. E meu corpo se eleva num transe praticamente espiritual. Você estava lá e sabe, de um jeito ou de outro.

São horas dessa conversa de sem ser. É um samba no salão escuro. Apagado pelos acontecimentos em que não existia o “nós dois”.

Paciência. Tem coisas que são de tocar. Todas as outras são perigosas de mexer.

A uma amiga que ousou amar demais

No cenário de confusão da vida, as palavras que valem são as que descem queimando e mudam tudo. Mas de que valem as direções e sentidos dessas escolhas? Onde se escondem o bem ou o mal? Quando passaram a existir? Por não saber quase nada assim, mal sabia viver.

Eram as suas agonias quando o dia começava e quando a noite anunciava o fim. Rodava a volta da vida. Ela sozinha dentro de seu corpo em festas. Ela sozinha em quartos diferentes com discursos iguais. Ela sozinha pelo parque em passos que vacilam. Ela sozinha em beijos entregues ou de bom gosto roubados. Ela sozinha e seu corpo apenas respondia.

Ela guardada em sua mente de segredos que desejam ser descobertos com a finalidade de descarregar seu peso. Ela silenciosa em seu castigo. Enclausurada em fachada social bem aceita. Pessoa gente boa.

Quando descoberta, tirava força da vergonha e rumava adiante para outra cidade vazia de iguais. Eremita de civilização em avanço. Seu peito definhava e o café jamais bastou.

Mão de Pecado

Diante do cenário da cidade fria

Cada qual com seu propósito

Transforma luta em rotina

Cinco dias de trabalhar

Dois de viver

Pois

Assim

Nos tornamos produtivos

Nos enclausuramos em falsas civilidades

Falsas liberdades

E seguimos em busca do copo cheio

Do cigarro de tragar

E em busca da bondade até morrer

Mas

Sobrevoando o mundo

Em asas musicais

Vemos claramente

Que nosso erro

É cometido de olho fechado

Com discurso vazio

Braço largado

Palma aberta

Mão de pecado.

Quando eu digo “meu bem”

Aos amores do mundo

Às sagradas mães que geram

Aconselham

Aos sagrados pais que estão

Participam

Aos irmãos que sorriem junto

Em frente

Às amizades mais fortes

Bem mais fortes que poemas

Ou problemas

Ao próximo que sofre uma dor

Que posso ajudar

Ao próximo gesto silencioso de pular uma linha

 

À força da natureza

Que transmuta maldade em benção

Feita de aprender

Ao amor que aparece apaixonado

Pela janela escancarada

Aos meus cadernos queimados

Com palavras de ontem

Que viraram os livros

De cada nova era

Que nasce todo dia dentro de mim

 

Aos mundos e eras de mim mesmo

Aos meus eus-passados que me trouxeram

Mais perto desse tudo ou nada

Que é viver em busca de algo maior

Que o simples prazer de meus sentidos tolos

 

À inabalável força criadora que torna criativa

A ponta do grafite forte de meu lápis

Decidido

À liberdade que conquistamos na arte

Meu amém.

Simples assim

 

Temos árvores ao longe. Nós aqui parados, sentados e em pé para buscar mais uma. O calor da roda e a cevada gelada.

Goles e risos. E o vento balança as árvores numa dança esquisita. O sol se põe logo atrás radiante.

Os últimos pássaros se despedem do dia a não ser um grande parado na grande árvore verde. Vamos mais perto e vemos que é um frisbee. Os pássaros se foram e resta a noite com os copos cheios.

Rimos alto por nada melhor em troca.

 

 

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