Tela

Acendo o mundo

Na ponta do meus

Dedos frágeis

Que até ontem

Datilografavam

E

Vejo nosso Brasil

No palco do escândalo

Mais uma vez

A mesma vez

Que não acabou

Desde a vez

Do outro cara da vez

Em que o pobre

Não tinha vez

Quem ouve

Democracia

Ouve

No mesmo peso

Que vale o ouro

O outro

Negro

Pobre

E classe que temos medo de ver

Damos nome

E para esquecer

Meu país luta com o câncer

Sim

Graças a Deus

Que não é pessoal ou jurídico

Do bolso com sede

De preenchimento

De garganta

De bravata

De ego acima de justiça

Feita para uns de um jeito

Para outros silêncio

Cegamos

A jovem árvore

Democrática

Com

Mão que tampa nossos sentidos

Num golpe desesperado

Em busca de ar

Sufocamos

Até que

Volte a existir

Motivo

Sonhos em consonância

Geração que em silêncio

Talvez desperte

Consciente

De papel

Do que é tela

E do que é feito pra viver.

Verdades elementares

Eu o ouvia, só isso. Acho que era por essa razão que aquele sujeito peculiar gostava de mim. Chamava-me “amigo”. Bom de histórias. Bom a ponto de contar e dar voltas e se alongar empolgado. Parece ruim, mas envolvia a gente. Levava jeito para a coisa que jurava aplicar mal. Mas isso é outra história.

Sua reclusão na velha casa da família morta me chamava atenção acima de tudo. Era difícil fazer ele chegar nessas histórias, eram as mais verdadeiras. Ele prezava tanto a verdade, que escondia todas as suas, especialmente as doídas de dizer. Naturalmente, eram histórias que rolavam como pedras que saem inteiras da rocha ou não há verdade alguma.

Era as ouvir ou as deixar morrer.

Decidi aparecer em sua grande casa cheia de árvores e plantas. Juro que havia até um barulho de água correndo não se sabe onde. Entrei, de bom grado, em sua rotina exagerada de sábado.

Resumindo: aterrissei em um de seus porres rotineiros de vinho, cigarros, uísque bom e alguma cerveja – ele sempre tinha ipa. Só apareci. Levei meu bloco escondido atrás de uma garrafa de pinga curada com folha de cataia. Ele gostava muito e falávamos mais toda vez, uma vez aberta a garrafa.

     –  Eu sei porque você está aqui. Sei a verdade que você quer me ouvir dizer. Sei de minha história.

Aquilo me doeu. Mas confesso que era verdade. Eu estava pronto para toda sua verdade bem antes de vir à tona. Aliás, isso assustava meu amigo e a própria verdade que ele guardava, especialmente a própria verdade de algum jeito que não sei nem dizer.

Parecia que se eu não me agarrasse na verdade, exatamente neste segundo, para sempre ela sairia correndo de uma maneira que meus braços de escritor não seriam capazes de alcançar.

Por isso, insisti de forma contundente. Apelei para seu senso de boas histórias. E argumentei que estas eram sempre cheias da palavra verdade.

Então, respirou fundo.

Só aí, ele me contou que não sabia mais sair daquela casa. As lembranças criaram raízes em sua alma, palavras dele. Os paralelepípedos de passar até chegar no bar eram os mesmos. Ele sabia. Os paralelepípedos o conheciam. As pedras sabiam quem ele era. Sabiam dos dias que ele sorriu apenas por sonhar em sorrir. Os paralelepípedos sabiam o quanto era breve o desejo egoísta de conquistar um sentimento livre como a felicidade ou, na falta de outro nome, o amor. A casa também sabia. Mas a casa, diferente das pedras da rua, não cobrava nada. A grande casa da família morta permitia que ele e suas dores adormecessem sobre ela, dentro dela.

Silêncio.

Eu não deveria ter perguntado nada.

Foi toda a verdade que conversamos naquele dia. Garrafas tombaram diante de sua grandeza.

Temos que lembrar

Diante de tantas verdades, a frase sangra. A página em branco subjuga o poeta com a calada da noite em que facada firme no peito da pátria é planejada.

A República de antes atacava tirania com promessas para o mais pobre; a república de agora ataca mais o que defende o pobre; porém, este se envolve no esquema do rico. Há rico não investigado apropriadamente, devido ao senso de prioridade midiático. Editores-chefes perdem credibilidade. Vampiros aguardam no silêncio. Continuarão enclausurados, pois é outono de país tropical. Mas acima de tudo tropical.

Há falhas de discursos, conversas e ações. Das temperadas às mais quentes. Estas confundem o poeta. Sem sentido, prefere retomar a vírgula. Pensar. Para não falar bobagem. E poder entregar amor e esperança para essa pátria verde, coração pulsante de aceitação para cidadãos do mundo. Relembremos quem somos, Brasil.

Montinhos

Tenho um amigo bem mais experiente da vida. No tempo em que o encontrei pela última vez, falava sobre textos. Contava de seu encontro mal sucedido com editoras. Havia dor ali. Dor elegante. Tipo general que vence batalha com um corte em diagonal abaixo do peito, longe do braço.

Ele me ensinou sobre as boas histórias em meio a leitura imaginária de um conto seu.

Era uma mente privilegiada em imaginação além da razão. Quem tentava entender sua complexidade, ao invés de apenas aceitá-la, não conseguia conviver com ele de forma confortável.

Incansável em sua tarefa de me mostrar algo que eu não enxergava na ocasião – e nem poderia pela falta de verdades vivenciadas – ele me levou a um café. Conversamos de textos, paixões, profundos amores. Nesse instante, dava para notar, no fundo dos seus olhos vívidos e lúcidos de verdade, que havia algo desconhecido para o meu eu-jovem ali.

Fagulha. Centelha de Neruda. Título de minhas poesias. Finais dos meus livros. Minha proclamada busca.

E ele, quando percebia que eu enxergava e que me perturbava, apenas repetia com sorriso de canto de cílios brancos:

– Esconda seus montinhos, meu amigo.

Enxergo, cada vez, com mais clareza. Gira e volta e o gosto do café me traz essa frase dele.

Mancadas

Ela tinha um vizinho manco. Fato que por si só não diz muito. Porém, o quanto ela reparava nele me perturbava. E um dia perguntei a respeito. Ela me disse, do jeito dela que não sai da minha cabeça, que admirava a postura dele ao andar.

 

Ele tinha mulher que aparentemente amava e era feliz. O casal, por sua vez, tinha um filho recém-nascido. A mulher amava o manco incondicionalmente e ele desfilava – no peculiar olhar dela, vizinha observadora da janela da lavanderia – mancando felicidade até o bar.

 

Era amor.

Simples amor.

Ele pleno em sua condição da alforria das dezoito horas. A família parecia sólida nesse amor.

– Nada se constrói, se não for isso, nada constrói.

Ela repetia antes de entrar em puro silêncio. Chegava a assustar.

Rosa

Primeiro

A gente não conhece

Confunde

Leva e aprende

 

Segundo

A gente acha demais

Que é

Nosso

Seu

Ou meu

 

Bem depois

 

Números

Dias

Vadiamos

Nós

Trabalhamos

 

A gente

Sóis

E

Luas

Percebe

Relance no olhar

Amor

Simplesmente

É

Centelha

Divina.

Vira música

Meu sonho começou

com uma música do Led

Feito diamante que brilha no céu

Feito de futuro nem tão distante

Feito de garra e força

Por mais de ano necessária

Por maneira de repetição criada

Letra em criatividade misturada

Vira coragem

Ali na sua frente

Parada

Pronta para ser vestida

Desvendada

Bela coragem

Virou som

Meu mundo

E minha guitarra

Minhas batidas de coração na batera

Meu espírito grave do baixo

E minha nova voz revelada.

Amarelo Arte

Anos pra adiante

Tempo por agora

Distância para o corpo

Machucado do viver

Do lutar

E de perder

 

Cansou de cobrar o passado

Os erros do passado

O que passou

Deixa o vento levar

Para levantar a saia

Para pular a vaia

Para sempre pulsar

 

Nosso jeito de cantar

É feito índio suspirar

Não te cobra

Não te bate

Apenas sobra força

De combate

 

E para quem julgou

Perdido

Ou caminho arrependido

Chegou a hora

Que fizemos

Para bastar

Amarelo em arte brilhar

Ver teu corpo

Entregue

Suar.

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