O lápis e a palavra

Nós somos as inoperantes

Frias curvas do tempo

Com silhuetas de Homo sapiens

E pernas com calçados novos.

Nossos dias sanitariamente

Brancos e espaçados

Brilham em página de criar tudo

Ou não querer dizer nada.

 

Não, minhas memórias não me retratam.

Elas me confundem.

Foram feitas de bares e autores.

Porque gestos se completam ao falar.

Porque nos perguntamos,

Porque nos permitimos,

Porque discutimos vezes demais ao por do sol, nos entregamos à intempérie do tempo

Sempre fomos diferentes.

 

Sim, há conserto para estas frases

Que nos fazem ferir profundamente

E finalmente humildes:

o perdão, sim, eleva fala,

mas a verdade está escrita

Não se pode sonhar sem ela.

Natureza do Encontro

Removidas as pedras do caminho, ele enxergava com clareza o plano reto que havia traçado. Não havia sequer sinal de tristeza no mundo das pequenas coisas. Porém, o isolamento já o fazia perder a noção da memória. Chegava a ouvir passos fora da cabana. Ele sabia que se tratavam de passos imaginários, ainda assim os conferia pela janela. Removia o pano velho da cortina da frente. Limpava os vidros embaçados com o vapor da chaleira que fervia no conjugado sala-cozinha. Lá fora estava o mato. Apenas o mato. As árvores que não se importavam com a presença dele. A natureza com a qual ele se negava a conectar observava impassível.

Acendeu um cigarro. Não demorou abrir a porta. Respirar mais fundo com o ar que vinha em sua direção depois de chacoalhar as árvores. Deu uma volta pela pequena construção de madeiras que sabiam contar histórias de muitos donos. Ninguém parava muito tempo por ali.

A calçada de pedra no entorno reclamava de seus passos lentos, alternados com tragadas profundas do cigarro forte. Na falta do que fazer, fez pegar o carro. Apagou o cigarro dentro de uma garrafa velha com restinho de água. Ouvia o motor com atenção. Funcionava perfeitamente. Saiu para limpar a janela que tinha gelo da noite que ainda não havia derretido com o começo da manhã. Terminou o serviço e sentou com a porta aberta. Decidiu fechar para ver como se sentia. Segurou o volante e pensou no material com o qual era feito. Pensou também em como os carros são feitos e o quanto ele desconhecia o processo. Sua ignorância o assustou. Pulou para fora do veículo. Entrou no mato.

As árvores ressonavam ao vento. Diziam baixinho que não havia viva-alma por perto. A terra estava úmida. Parecia gelada. Caminhou até que o tempo fizesse volta e ele achasse um lugar com uma vista para sentar. Foi só isso que fez. Porém, ver a imensidão verde abaixo do morro que ele havia subido mudou alguma coisa, revirou algo por dentro.

Os pássaros contornados na contraluz solar e a bateria de galhos se movendo ao sabor do dia encheram seu estômago de vida. Logo suas tripas gritaram de fome e, em seguida, sentiu-se invadido pelo prazer que apenas o viver e necessitar proporcionam. Imaginou mentes pensantes. Seus objetivos e resultados. Revisou seu plano em linha reta. Entregou ao horizonte, logo após as árvores. Atirou sobrevoando o mato e rumo ao sol. Lançou mão do medo, construiu coragem. Levantou e quando voltou a água tinha toda fervido. A chaleira reclamava do exagero do fogo. Ele fez um suco, fumou mais um pouco, ajeitou a cadeira velha lá fora, sentou-se contemplativo e teve certeza em paz.

Rock Semper Fi

Acredito que ideias geniais como o rock surgem, por assim dizer, gradativamente. Do blues nasceram as notas do Bill Haley, Chuck Berry e do Little Richard, assim como se não existisse outro caminho musical possível. Coisas que começam assim tendem a nunca mais acabar. É como aquele abraço que você um dia tentou dar naquela pessoa logo no primeiro dia em que a conheceu. De um simples gesto como este, há encadeamento de sentimentos, perfumes e lembranças que jamais nos abandonam. A música para mim é isso: perfume que a lembrança jamais deixa desaparecer.

É indiscutível o mistério escondido sob o encadeamento de acontecimentos do começo curioso das bandas que se juntam e só dão certo depois que trocam de baterista. O tempo passa e, de uma hora para outra, eles se reúnem para compor uma música chamada The End. Fim para quem? Permanece o cheiro das notas na guitarra de um álbum branco e o misticismo de um disco cheio de cores inspirado em puro sincretismo entre ocidente e oriente, entre mundo real e a metafísica idealista de algo pretendido. Aliás, nos despedimos dos Johns e dos Georges, choramos junto quando os Pauls perdem suas Lindas e assistimos satisfeitos aos Ringos completarem 70. Rock é mais que música, são lendas por debaixo de notas.

E não tem como dizer pouco sobre alguns que se despediram com menos idade do que convencionamos e viveram mais intensamente do que ousamos. Jimi, Janis, Jim.  Sem aliterações, foi assim que aconteceu. Há algo de contato com uma intensidade muito maior que a nossa, com uma capacidade muito maior que métricas são
capazes de resumir. Tenho vergonha de quem insiste que música é matemática.
Desculpa, mas meu som é movimento e paixão. É desabafo sobre e para todo mundo ouvir. É um jeito de cantar sobre o amor que chegamos muito perto de compreender, sobre as frustrações que nos cansam de insistir, sobre os sonhos que mantemos em nosso patamar turrão de deliciosa teimosia.

E como não concordar? Existe a mais plena liberdade por trás dos cabelos longos e das canções de todo meu amor de um Led que não nasceu nesse planeta, apenas passou para dizer que caminhos são escadas e que, quando a represa romper, não poderemos mais chorar ou rezar. Impossível manter uma visão simplista de perfeição matemática ou revolta pueril em tanto som com sentimento proclamado em liberdade, desejo e ação. Igualdade, força, bem e mal. Amizade, fraternidade e duas guitarras tocando junto com vocal e baixo ritmando tudo com batera.

Pois vejo tudo, escuto tudo. Como já anunciado, esse ritmo não morrerá jamais, não pode ser sobrepujado ou subjugado. Desde sempre, ele assusta, pois manda a matemática musical, a erudição excessiva e o verbalismo contido para longe. É a canção maior que gerações.  É um som para quem tem coragem. A canção, um som, vários gestos. E, quando não estivermos mais por essas bandas, a lembrança do rock continuará tocando.

Publicado originalmente em 13 de julho de 2010.

Festa na Rua da Árvore

A luz da festa acalmou
O outro lado animado
Da esquina delirante
Da vida ao imaginar
Silenciou agora
Podemos relaxar lembranças
Somos prudentes ao pousar
Lápis e caneta sob o caderno
Gastamos tantas páginas
Com recordações e planos
Viramos as páginas
Ferimos o asfalto
Dedicamos dias sem festas
Para ser o carinho do vento
Na folha da planta desnuda
Na esquina da rua
Pela qual ando
Volto e refaço
A árvore não toca ninguém
Porque apenas permanece
Mesmo nas caminhadas noturnas
Diante dos cigarros tragados ao fim
Com prazer repetido automático
Com flores que outra planta fez nascer em volta
A brisa também traz as coisas
Plásticos e alguns copos ou canudos
E nesta noite
A festa desligou as luzes
E o outro lado da rua dormiu
Com a cidade atenta
À árvore despreocupada
Incólume ao silêncio
Devoto seguidor do cansaço
Que se fez em regra
Corpo de festa também deita
Natureza cobra.

Liberdade

Somam-se atos
E fatos
Às folhas que caem das árvores no outono
Eu não esperava e você também não
Eram muitos nãos naqueles dias
Lembro talvez os lençóis para secar
O sol entrava tímido pela janela da lavanderia
A minha cabeça se enchia com a luz e não sei mais o que realmente aconteceu
Só alcei um vôo pela janela
Rumo ao sol que parecia aquecer a terra que acho ser minha
Ao achar o chão
Encontrei respostas
Você já tinha ouvido falar de perguntas e as preferia
Pouco ligava para o que vinha em seguida
Importante era perguntar
Causar o efeito que queria causar
E eu lembro isso assim como me recordo do sol
Eu fui ao sol para não haver mais
Eu fui ao sol para não haver mais
Nada que sobrasse ou faltasse
Para que o ciclo fosse de vôo que avista a terra
Cessasse
Parei em alguma parte importante demais
Parada é respiro antes da chegada
E eu voei como sonhei
Não havia o sofá ou a sala com os quadros no chão
Era minha preguiça de pendurar
Era isso ou lavar os lençóis
Ao lembrar de secar
Voltava o sol
Eu fui ao sol para não haver mais
E transformado tudo foi e ficou
Foi o tempo em que o viver não acontecia
Ficou o deslizar de nuvens por entre os dedos
E apenas ao sabor do vento
Eu fui ao sol para não haver mais
Como o cheiro do café que sai do pote aberto
Eu fui ao sol para não haver mais
Como o fim realizado
E sentimento com nome certo.

Confiança bem

Silêncio
Versatilidade entregue
Ao momento
Converte-se ao mundo
Para se viver de tudo
É preciso ter pernada
Para solidão
Que fica boa
Em confiança ao tempo
Ainda que a paixão escorra com o vento
O amor tem que ser sincero
Palavra entregue é o maior momento
Bem precioso que confere o poder
A quem recebe
Aí sim
Se constrói de um tudo
Em constante reinvento.

O montanhista

Escala reflexivo

Ao calor do sol

Que se aproxima

Rareia o ar de respirar

Rareiam os pensamentos

Fica o que importa

O certo é descer

Voltar

Um

Pouco

Mas ao escalar

E avistar

O resto

O cume

O pico

O fim do morro

Vem à mente

“Ou chego

ou corro”

Não existe final plano

Para o mundo do alto

Cotovelos no chão

Mas o que é chão

Pensamento

De cima

Deitado

Tudo ilusão.

Coragem é pé de caminhada

Com o espaço
Testemunha
Com os céus
De pequenos planetas
Como cenários
Somos os súditos
Que recebem
Reverência real
E nos encantamos
Com inventos
E dias depois
Inertes
Viramos solidão de travesseiros comprados
Pedimos a um homem que perdoe pecados
E não sabemos nem dizer nossos nomes
Em frente ao espelho
Em frente sempre
Para dores unguentos
Que voltam o sujeito
À natureza
Que tudo aceita
Calada
E tudo se aceita
Diante da lei
Da causa e consequência
No leite esparramado
O secreto aprendizado
Não há resultado igual
Tudo zera
Final
Acaba
Segredo
Chega ao destino
E a pergunta
Que fica
Realmente morre
Quem não vive jornada
Não tem coragem
Ou pé de caminhada?

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