Todas as coisas

Você não vê as coisas

Como eu as vejo

Elas me veem

Elas vem e vão

Abrem espaço na minha vida

São as coisas que viram desejo

Elas exibem as cores

Revelam o amor

São ser único e só

Junto com a paixão

Coisas são acontecimentos

Aquilo que o calendário chama de dias

Que o relógio divide em horas

Minutos e segundos

Linear desse jeito jamais fui

Você que pensa assim

Porque eu só

Preciso de um instante

Um relance

Um perfume

Um jeito de tudo estar

Lá verei diferente de você

Não tem problema

Só não me julga

Que segue o mundo.

Insistente com a palavra

Se não encontro palavras

Não me contenho

Não me abstenho

Do sagrado direito

De borrar o papel

Que espalho pelo chão

Cujo pó mancha as solas do meu pé

Diariamente

Arrumo e desorganizo como num canto

O final de cada choro, lágrima ou pranto

O mínimo detalhe do ângulo agudo

Que existe na ponta de cima do sorriso

E posso dizer ao notar

Que verdadeiramente existo

Já que insisto em tentar

Se não encontro palavras

Ficarei aqui até

Que as palavras que não encontro

Criem coragem

E procurem se aproximar.

Do carbono ao papel

O lápis descansa

Contido

Pensativo

Sobrenatural

Sobre a mesa

Espera que eu o alcance

Lança-se ao papel

Desempenha sua parte

Vê lágrima no céu

Nuvem na folha

Consoante

A intrigar

Texto borrado

Do grafite

Profundo

Compacto

Carbono

Às vezes me faz

Parecer

De verdade

Vivo

Arrebenta meu segredo

Em outra coisa

Quando cai

Na fantasia

Engenhosa

Se arranca

A desenhar.

Faz Bem

Com o céu de domingo congelado no olhar

Os pássaros escolhem entre as poucas

Árvores que se escondem nas quadras dos prédios

Eu penso com carinho no seu jeito de me olhar

Ver e enxergar e, ainda assim, aceitar

Ao final das nossas contas

A luz do sol

É que faz o céu azul assim

Fica melhor o gosto

Do cobertor aos passos até a cozinha

Aprendi a tomar leite

Com meu café de sempre

E o queijo com pão quente

Revela a lembrança com você

Ainda que desapareça o final de semana

Sei que começa outra vez

Renova-se e volta trazendo bem

Por estar ao lado de alguém

Que sabe segurar

Esquentar minhas mãos

Que costumam tremer nas manhãs.

Reino do Amanhã

Ela se espreguiça lentamente

Percebe que o ar da manhã lhe confere a chance de renovar tudo

Fazer diferente

E refaz sua rotina

Uma volta entre árvores

O sol luta para entrar e entregar luz

Não há silêncio absoluto entre terra e troncos

As folhas dizem com o vento

Animais desconhecidos flutuam de encontro com o abrigo

Permanecem anônimos

Rastejam

Cavam buracos

E escondem paz em solidão

Não constroem nada

mas permanecem firmes em seu propósito

De apenas praticar o que amanhã

Não leva a nada a não ser ao encontro de suas pequenas identidades

E ele caminha mesmo sabendo que o terreno é marcado por cercas

Não tão fáceis de saltar

Depois daquela última curva da trilha acaba

Termina abrupto o que cabe a ele no mundo

Ele caminha até lá

Salta arames farpados e entrega passos pela estrada de terra batida e pedras velhas logo em frente

O olhar de um homem diante de um mundo que não espera nada além de ordem

Ele volta pelo portão

Como se fosse a primeira vez

Adentra o terreno firme

Volta para a casa que fica na parte mais alta

Contempla os limites

E volta a andar por entre as árvores

Porque ainda não foi suficiente

Pensamento ou gesto

Para recomeçar.

A observadora e o psicodélico

Há pessoas que vale a pena escrever sobre. Elas encontraram seu propósito em vida por um instante simples ou repetiram em rotina uma superação silenciosa. Ele vivia em reuniões. Ela também. A rotina corporativa demais os arrastava para seus pontos de fuga. Para ela, era o sexo. Para ele, o adormecer dos sentidos.

Chegaram a se relacionar. Não durou. Não os impediu, no entanto, de conhecerem um ao outro. Ela notava que ele sempre resolvia os pontos principais numa reunião. Liderava a negociação. Era direto e sincero sem ofender. Só que logo após sair da sala. Seu mundo girava em torno de umas oito canecas de café. Até o almoço ele chegava a suar. Voltava de tarde apenas concentrado, ainda suava. Até o final do dia, era responsável por umas duas garrafas de café completas. No outro dia, a mesma coisa.

Porém, algo acontecia no intervalo das dezoito às oito horas. Ele amanhecia em paz. Pronto para manter sua agenda de reuniões sempre de manhã. Ela observava-o resolver tudo com um desempenho magistral. Era imparável. Logo após, café e café e suor e mais café. E amanhecia para ele brilhar novamente. Os dois eram felizes com o que construíam para si mesmos. Eram solitários de noite. Ela, agora, gosta de sexo e de observar. Ele continua psicodélico.

Dia de desenhar

A fragilidade das linhas que nos unem

Invisíveis traços

Gravidade do tempo

Paciência de entender

A divisão em dias que insistem em se renovar

Para nos libertar do passado

Das correntes que nos prendem aos mesmos gestos

Da ação ao convite

Da razão restou a conjuntivite

Tentamos tanto ver

Tornamos o mundo impossível de explicar

Quando o mais nobre gesto é fazer

Fazer sem parar o que desperta paixão

Em faísca do cérebro

Com discreto tempero da alma de ter fé e acreditar

Fazer tudo repetido para ser melhor e entregar

Sem olhar para o que já foi

Para o erro que já está esparramado na linha da vida alheia

Para o erro dentro de nós mesmos

E o melhor de hoje é filosofia-nave

A guiar o corpo a transpor

Com calma e confiança

Um dia superar

Pontos viram linhas

As linhas traços do desenho

Que ao existir

Inevitavelmente estamos

Sem jamais apagar

Eternamente a rascunhar.

Tempo de se reinventar

Todo mundo questiona o muito escondido no tempo investido em rotinas de mesmos gestos. É o tempo do recolhimento. Da reinvenção para novos dias, pois o mundo não deixou de girar repetido e em outro lugar.

O chinelo de dedo, o vento gelado e o sol refletido nas unhas do pé formavam um quadro que conta sobre o calor escondidos no cantos contemplativos das manhãs. Se nada mais no dia acontecesse além daquela manhã, aquele momento ele guardaria. Conservaria do tempo com a idade. Carregaria nas rugas as consequências dos atos. E entregaria para quem pudesse ver beleza em seu segredo.

Os carros da rua próxima buzinavam. Cães latiam de dentro de canis planejados. O mundo girava independente de quem entendia seu ritmo. Ele se perguntou se sempre foi assim. Não existia o passado, os gestos bons não importavam para poder anular o que não desejava ter vivido. Quanto dói pensar sem saber que já foi. E reinventar faz perceber o óbvio detalhe escancarado. Andarilho bom sabe exatamente os quilômetros que caminhou. Existir passa a ser deixar ir, seja lá como for.

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