O silêncio do sol

Ele acordou depois de 45 minutos. Sentiu o lençol gelado do outro lado da cama. Esticou as pernas até ouvir as juntas rasparem. Ouviu o latir do cachorro do vizinho e sentou na ponta do colchão. O piso liso e encerado sob seus pés. Ao levantar endireitou a coluna e encarou seu reflexo no espelho longo e vertical ao lado direito de tudo. Era um espelho antigo, cheio de vida e que se encaixava tão bem à parede por detrás da porta que chegava a contar parte da história do lugar. Passeou as mãos pelo próprio rosto e se deparou com o formato da simplicidade. Sete passos depois, pasta na escova de dente e o bafo matinal se dissipou e deu lugar ao frescor do novo dia.  O chuveiro molhou primeiro suas costas, depois a água inundou o corpo e o couro cabeludo. Ele aliviou sua expressão. Minutos. Gosto do sol que invadia o vidro fosco. Ele abriu a janela e sentiu um vento renovador, como se viesse de uma serra ou mar próximo. Respirou fundo daquele jeito que o pulmão se regozija em plenitude. Ficou de costas para seu reflexo no vidro do banheiro e encarou os azulejos. Reconheceu seus desenhos pela primeira vez e se sentiu em casa. Respirou novamente. A toalha branca, limpa e nova inspirava. O vento quando atravessou a porta fez tremer sua nudez. Correu da cortina aberta da sala. Fechou mais uma porta. Olhou o guarda-roupa aberto, escolheu com cuidado uma camisa verde, uma calça qualquer e o sapato menos gasto. Passou desodorante e borrifou o perfume que gostava perto do pescoço, quase na nuca, ombro ou costas. Já na cozinha, tomou leite de soja. Alongou as pernas. Esquentou um pedaço de pão até que ficasse crocante. Passou requeijão que derreteu. Comeu com o cuidado e a leveza suficientes para que sentisse bem o sabor do presente. Limpou os lábios e o bigode com o guardanapo poroso e macio. Amassou em seguida e repousou a mão na pia de mármore. O resto de água molhou o papel e a ponta de seus dedos. Deixou estar. Permaneceu assim calado alguns instantes. Seus olhos ardiam com a luz. Seus pés firmes. Trocou a perna de apoio. Nem cogitou sentar. Deu mais uma volta pela casa. Fechou as últimas janelas abertas. Cerrou as cortinas gentilmente a ponto de sentir o tecido com sua textura gasta. Desligou a lâmpada do abajur e encerrou as atividades circulares de um ventilador de teto. Endireitou o quadro que ficava no chão. Apanhou sua carteira, telefone e colocou no bolso direito os papéis que precisava para começar o dia. Cuidou para colocar o ipod e o pen drive no outro bolso. Era uma música que o acalmava do Iron and Wine. Desejou a tarde e a volta para casa e precisou respirar fundo novamente. Decidiu finalmente começar o dia, a semana, o ano e tudo de volta. Foi assim que girou a chave com olhar distante. Sentiu o gelado dos corredores de prédio. Olhou a planta na entrada do vizinho, um comigo ninguém pode. Ao sabor do despertar, encostou a porta e foi trabalhar.

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