O menino que escreve

Ele não pára de escrever. Criança que acorda e vai à escola pra estudar mais e aprender mais coisas para escrever. Gosta do jeito da professora segurar o giz enquanto olha para o quadro negro que é verde e ele nunca entendeu o nome. Carrega um jeito de juntar frases sem coesão no mesmo parágrafo. Faz de propósito e acha graça quando dizem que está errado. Não entende muito bem seu papel, seu passo na vida. Gosta também de respirar fundo antes de escrever e passar a mão na camisa macia de cima pra baixo, sempre de cima pra baixo, antes de começar algo importante. Só que o importante de sua vida ainda é pequeno, do seu tamanho de menino que fala sobre casas, quintais e terra que mancha o joelho da calça. Ele sabe amar. Ama as coisas pequenas: cor das toalhas de se enxugar, montes de pedra de escalar, dos cachorros sem raça definida e dos gatos que brigam com a mão da gente. Gosta do chá preto que sua vó prepara e gosta de olhar enquanto ela torra o pão de ontem, tira do forno e passa manteiga dura que derrete na horinha. Sente os sabores e se apaixona por cada um. É sincero demais com o que não agrada. Não sabe muito da vida e não faz nunca de conta. Conta tudo para sua mãe com temor pelo simples desejo intenso do perfume da absolvição incondicional que sempre vem com abraço honesto. Luta no sofá com seu pai nos dias de frio em que usa um gorro marrom que esquenta suas orelhas. Gosta, logo em seguida, de parar no escuro do seu quarto pequeno e olhar para o amarelo da prateleira do armário que quase some sem luz. Seu nome é Tito e ele não pára de escrever.

Em breve lançamento do livro Vitrine de Sonhos pela Editora Inverso
que traz esse menino maior, adolescente, virando adulto em seu caminho assustador pela faculdade, pelos trabalhos, relacionamentos e pela, enfim, vida em todas suas formas.
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