Montinhos

Tenho um amigo bem mais experiente da vida. No tempo em que o encontrei pela última vez, falava sobre textos. Contava de seu encontro mal sucedido com editoras. Havia dor ali. Dor elegante. Tipo general que vence batalha com um corte em diagonal abaixo do peito, longe do braço.

Ele me ensinou sobre as boas histórias em meio a leitura imaginária de um conto seu.

Era uma mente privilegiada em imaginação além da razão. Quem tentava entender sua complexidade, ao invés de apenas aceitá-la, não conseguia conviver com ele de forma confortável.

Incansável em sua tarefa de me mostrar algo que eu não enxergava na ocasião – e nem poderia pela falta de verdades vivenciadas – ele me levou a um café. Conversamos de textos, paixões, profundos amores. Nesse instante, dava para notar, no fundo dos seus olhos vívidos e lúcidos de verdade, que havia algo desconhecido para o meu eu-jovem ali.

Fagulha. Centelha de Neruda. Título de minhas poesias. Finais dos meus livros. Minha proclamada busca.

E ele, quando percebia que eu enxergava e que me perturbava, apenas repetia com sorriso de canto de cílios brancos:

– Esconda seus montinhos, meu amigo.

Enxergo, cada vez, com mais clareza. Gira e volta e o gosto do café me traz essa frase dele.

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