Minhas letras para o papel, eu para você

Quando encosto o pé no assoalho de madeira, começo a escrever meu mundo. Os primeiros passos viram frases que junto com o a que respiro se transformam em parágrafos. Páginas e palavras que entrego ao dia-a-dia que vejo se materializar e se decompor em letras.

Meu sol se levanta bem mais rápido do que se põe e, enquanto vai embora, se despede em rimas de uma poesia que escrevo em um pedaço de papel que colocarei em outro canto – especial e qualquer.

E, desse jeito desajeitado morfológico e sintático de levar as horas, escolho minhas palavras. Algumas são de impulso, muitas me escapam, poucas consigo enxergar antes de colocar no papel de minha história.

Ainda assim, insisto em escrevê-las. Olhar sua dança no meu teclado ou lápis gasto. Acompanho seu balanço na medida em que emigram de minhas idéias para um papel que jamais me pertencerá.

Afinal, escrever é se entregar a um mundo que jamais se aproximará. Nunca será capaz de chegar perto de seu instante de escritor. Um instante repetido em dias que jamais voltam a ser os mesmos. Um instante tão intenso que não cabe apenas em sua alma e tem que escapar em letra e arte para uma folha branca. Cor que a gente mancha em garranchos. Branco que, como ninguém, acolhe e compreende. Escritor e papel: mundo jamais se aproximará.

Eu tinha tantas certezas como esta.

Até que pequena ela surgiu em minha vida. Surgiu discreta, quieta, em seu canto de estar e deixar acontecer. Observava, sorria para os outros e – tenho certeza que – jamais para mim. Era seu jeito de estar nos locais, ter tantas amizades, conquistar quem passava, estava, ficava ou ia. Afinal, quem a conhecia de verdade, entendia: seu jeito, suas cores e seus sons.

E, durante anos, insisti em meus erros e meu papel em branco preencheu meu mundo. Meu livro virou filho. Minhas páginas encontraram mais histórias, contaram tantas outras. E por cada passagem, por cada trecho de vida que conheci, por cada pessoa que cruzei meus diálogos sempre busquei a força da página. Agora entendo que procurava a compreensão de meus blocos de incontáveis textos que muito provavelmente se perderão para um mundo de tanta gente.

No entanto, numa dimensão paralela de acontecimentos, ela seguia perto, conhecida, distante na amizade e olhares. Até que em meio a filmes escritos por autores que nunca conheci, reparei numa possibilidade diferente: ela para mim.

Nos primeiros dias, repeti para mim mesmo: “Coisa da sua cabeça, como tantas outras loucuras.” E deixei estar. Delirante, errante e apaixonado pela mera possibilidade, não pensava em outra coisa.

Mesmo assim, procurei na liberdade acertar.

Deixei que outros países a levassem, quem sabe afastassem, mas trouxeram para perto. Em meio ao jogo de futebol que é conquistar alguém, nos conhecemos. Placar favorável tornava tudo mais fácil. Nosso time, meu e dela, avançava para a final – um belo começo.

Por tanto bem querer, ainda que geograficamente tão distantes, nunca falamos tanto. E, num show do Paul, dediquei um pedaço de uma música com meus pensamentos olhando para ela, sua imagem refletida no céu de um sonhador, de um sujeito que escrevia em nuvens.

Segui minhas linhas, esperei a hora certa, segurei sua mão, construímos uma história nossa, só nossa. Sim, foi a história mais conturbada de todos meus textos – contando aqui os mais apocalípticos, felizes em sua confusão e intensos em sua força. Acertamos, erramos, tentamos, teimamos, tememos, trememos, quebramos, remendamos e voltamos ao fim dos tempos. Seguimos cada um com seus dias. Tentamos cada um com seu lado.

Dias, trabalhos, rotinas, festas, copos virados, tempos feitos e refeitos. Pré e pós-carnavais como jamais se planeja de ser. Havia intersecções em nossos caminhos. O tempo insistia em tomar para si nossa história. E a amizade que outrora cultiváramos permanecia lá disponível e intransponível em seu existir. Em diálogos nos encontraríamos pela primeira vez.

Era o tal do tempo escrevendo: “…até que se reencontrassem bem mais certos, centrados, consertados, ao eterno som do concerto da vontade que o destino desenha… uma desejo que aqueles que são para ser não são capazes de desdenhar… apenas cabe a eles, como dois que são, desenhar um novo presente com perfume de sonhos de futuro…”

Respiramos agora com essas palavras que decretam que tudo ficou para trás. E, ao mesmo tempo, esse mesmo tudo nos trouxe até aqui melhores. Novas fotos, sorrisos nunca antes sorridos. Não negamos mais nada, entregamos a nós nosso tudo.

E eu entendi que o papel não mais basta. Minhas páginas podem ser nossas. Ela lerá tudo, escreverá caminhando junto. Não apenas sorrirá sorrateira pelos cantos. Mas sim acrescentará sua força, sua presença de grande mulher que eu descobri. Partilharemos. Palpitará em meus cantos, contos, cada romance com a certeza de que meu eterno poema será só dela como presente de aniversário que se renova. Afinal, transformaremos quaisquer problemas em desafios que enfrentaremos juntos. Um renovar constante: um novo primeiro beijo, um intenso encontrar de nossas mãos e aqueles sempre abraços. Um oceano de cumplicidade, confissões, companheirismo e parceria. Pertencimento de dividir o dia, os próximos instantes e um futuro que se constrói. Encontrar tudo isso em alguém e, ao mesmo tempo em si mesmo, é privilégio que os mais sábios chamam de amor. Quem aí ousa duvidar?!

E, assim, livres como jamais existimos, escrevo sobre o que foi, é, será, imagino, conto, repito e canto. Deliro sem medo. Escrevo sobre tudo que perturba e abranda. Faço escorrer minhas preocupações em minhas páginas em branco, desenho meus livros. Solto assim: minhas letras para o papel.

E nesse eterno exercício das palavras, entendo que hoje posso finalmente pertencer: eu para ela.

Sim para quem acredita no amor.

Você para mim: pé no assoalho de madeira: minhas letras para o papel.

Meu mundo para o papel: eu para você.

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