Mancadas

Ela tinha um vizinho manco. Fato que por si só não diz muito. Porém, o quanto ela reparava nele me perturbava. E um dia perguntei a respeito. Ela me disse, do jeito dela que não sai da minha cabeça, que admirava a postura dele ao andar.

 

Ele tinha mulher que aparentemente amava e era feliz. O casal, por sua vez, tinha um filho recém-nascido. A mulher amava o manco incondicionalmente e ele desfilava – no peculiar olhar dela, vizinha observadora da janela da lavanderia – mancando felicidade até o bar.

 

Era amor.

Simples amor.

Ele pleno em sua condição da alforria das dezoito horas. A família parecia sólida nesse amor.

– Nada se constrói, se não for isso, nada constrói.

Ela repetia antes de entrar em puro silêncio. Chegava a assustar.

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