Ano Novo Absoluto

A madrugada nos envolve sem pedir licença. O bom e velho bloco surge das neves para reconfortar os dedos amortecidos e gelados. Há quem diga “fique aqui”, “vá até lá”, mas aprendi nas últimas semanas que o melhor é o calor da família que você escolhe viver, escolhe compartilhar, ver os fogos dos sorrisos. Que te faz voltar a acreditar. Pode estar 22,2 abaixo de zero quando existe amor, amigos de verdade. Não precisa explicar.

Acho que o fim do mundo é se perder, quem sabe a gente se encontre no Monte Real dos dias, das pontes, dos cassinos, dos autódromos e do frio branco até os joelhos. Afinal, quem escolhe o caminho certo não tem medo de temperatura, é criatura feita de coragem para o ano que se descortina. Sujeito capaz de beber até o fim esta cerveja boa, de malte selecionado e feita para abrir o céu.

Quantas dores levamos para os nossos jardins. Quão bom seria um facebook sem inveja da foto boa, sem pose ou poesia falsa do dia triste. Viva, meu bem, viva e deixe a gente viver. O Paul acertou no detalhe de viver ou deixar morrer. Morramos de prazer ou desejo. Morramos por desejar tão intensamente a vida juntos. Que sejamos um só um mesmo sem nos conhecermos. E, se nos conhecemos, sejamos um só ainda mais rápido. Até porque tudo que somos é vento passageiro em paisagem que não nos pertence. A única coisa que controlamos é nossa escolha prática. Escolha bem do seu jeito esquisitinho, me escolha, meu bem!

Hoje podemos ser árvores sem folhas, mas amanhã floresceremos e inspiraremos o mundo num sem fim de letras e poesia. Um brinde a quem escreve! A todos que usam a intensidade de que vem do umbigo – representante das tripas – para compartilhar o que sente.

Um gole ainda maior para quem se identifica e se pergunta logo depois de ler. Leitores e escritores são seres iguais que não vivem separados, pois são amantes e apaixonados um pelo outro e por outros e outras e tantas por vir. Mais uma cerveja, meu amigo, não cheguei ao fim do texto.

Brindemos juntos, portanto!

Nosso copo pode quebrar no contraste de meu frio com seu calor, ou do calor de meu corpo no contraste com o frio que nos afasta. !Que nada nos afaste, começando por exclamação e terminando assim intenso!

E seja você grata ao meu amigo mais Hulk por me fazer escrever mais e mais, usar meu dom ou sonho apenas para conjurar novos parágrafos. Oxalá para todos que lêem, amigos como os meus! Se vier me perguntar por onde andei nessas festas, digo pra você que foi descobrindo o resto de mim mesmo que eu não sabia que existia. Eu quero que  o vento frio corte minha própria carne se não for verdade, pois depois de tanto tenho a absoluta coragem de ser inteiro, antes de ser velho demais.

Não tente mudar o que sou, me deixe mudar por você se assim eu quiser. Não deixe quem você ama me julgar, pois se eu amar, eu serei mais e mais pela família que seremos, no tempo certo, do jeito certo. Afinal somos sonhos um do outro que aos poucos vira realidade. É possível para mim, pois vi assim acontecer no norte do mundo.

E, se o inverno está chegando, sejamos quentes para aguentar a verdade da vida: é mais fácil delirar com o conto de fadas do que ceder para o diamante bruto que encontramos. Quem verdadeiramente sabe amar? Quem verdadeiramente quer amar?! Quem verdadeiramente sabe? Quem cederá desta vez?

De um segundo pra outro o ano acaba, outro ano começa, exigindo que sejamos absolutos, absolutos para o ano novo. Energia incondicional. Contudo, quando é que, finalmente, decidiremos sermos inteiros senhores de nós mesmos? Acho que só falta escutar distante o pertencimento que pesa uma tonelada de Chico Science.

Detalhistas que se perdem em suas próprias cartas. Entre vôos revigorantes, esperamos as palavras exatas nas mensagens que nunca chegam, na perfeição que nunca existiu. E, em termos de carne, em se tratando das manhas de viver, escrever é a solidão de amar demais e, por hora, quem sabe, de não amar ninguém ou o mundo todo em entrega. Eu me entrego nem que seja de longe e em silêncio. Feito um cara estranho e sincero. Até porque se coloco algo na cabeça sou sol amanhecendo, sou ano novo absoluto.

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